Entrevista com Renato Tardivo

Entrevista com Renato Tardivo

Em entrevista, Renato Tardivo fala sobre os limites entre ficção e realidade nas narrativas audiovisuais e produções artísticas contemporâneas

As intersecções entre realidade e ficção têm aparecido com destaque tanto nas produções artísticas contemporâneas, quanto nas obras audiovisuais. Para quem se interessa pelo debate, seja com um olhar mais voltado às narrativas audiovisuais, seja à filosofia e à psicanálise, o curso do professor Renato Tardivo é uma ótima oportunidade de aprofundar no tema. Em entrevista para o blog, Tardivo comenta sobre a tendência dos filmes de ficção parecem explorar seu caráter documental, bem como os documentários parecem apostar em sua força de ficção. Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e escritor de contos. Doutor e mestre em Psicologia Social da Arte pela USP, com estágio de pós-doutorado em Psicologia da Saúde e Psicologia Clínica. Autor de diversos artigos na área de cinema, literatura e psicanálise, tanto na imprensa como em periódicos acadêmicos.

Por que, na produção audiovisual contemporânea, a ficção se aproxima cada vez mais da realidade e o documentário se utiliza cada vez mais das ferramentas de construção ficcional?
Não apenas na produção audiovisual. Parcela significativa da arte contemporânea tem se debruçado sobre as ambiguidades entre realidade e ficção. Artistas que fazem do próprio corpo a obra de arte e o destaque da autoficção na literatura, para citar dois exemplos, são evidências disso. Na produção audiovisual, não tem sido diferente. Ainda, a divisão entre filmes de ficção e documentários pode ampliar o debate. Seja como for, há um discurso sendo problematizado, e isso não é de agora, evidentemente, mas suas implicações parecem bastante atuais e apontam para o esfumaçamento das fronteiras entre realidade e ficção.

Por que o cinema do Eduardo Coutinho como ponto de partida para discussão deste curso?
Eduardo Coutinho disse em entrevista: “O que me ocorre agora é que o estatuto da imagem no documentário é dito verídico e na ficção, não verídico. Isso é ambíguo”. Com efeito, ele levou ao limite tal problematização, sobretudo em Jogo de cena, filme-ensaio primoroso. Ao pautar sua produção documental pela verdade da filmagem, e não pela filmagem da verdade, Coutinho alcançou um nível de questionamento inédito no cinema, como de resto contribuiu para as reflexões sobre a abertura à alteridade.

Além da obra do Coutinho, que outras referências no panorama contemporâneo podemos observar este debate entre o ficcional e o documental?
Aqui no Brasil, no esteio de Coutinho, podemos citar João Moreira Salles com Santiago e o recente No intenso agora. Outro filme interessante é Gabriel e a montanha, dirigido por Fellipe Gamarano Barbosa, que refaz o caminho percorrido pelo personagem real, combinando atores e pessoas comuns que conviveram com Gabriel. Também vale mencionar Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, que mescla realidade e ficção de forma instigante. Esses são alguns exemplos significativos de produções brasileiras recentes. Há muito mais coisa.

Você acha que experiências do teatro pós dramático como biodrama e o teatro documental dialogam com esse debate que você está propondo para o audiovisual?
Sim, certamente. Essas experiências se inserem entre aquelas que se debruçam sobre as ambiguidades entre realidade e ficção. Guardadas as especificidades entre as linguagens, um fio comum atravessa essas produções. Explorar o potencial de ficção presente em uma história de vida é, no limite, atentar para o fato de que toda biografia também se constitui enquanto ficção. Analogamente, a ficção mais interessante talvez seja aquela que se aproxime dos elementos constitutivos de uma pessoa, incluídos aí seus fantasmas e aspectos mais obscuros…

A ficção está perdendo espaço para a realidade?
Já há algumas décadas notamos uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, histórias, isto é, uma banalização entre realidade e artifício. Grosso modo, parece haver duas possibilidades de agir nesse cenário. 1) Perder-se na banalização do artifício ao real, buscando saídas ideológicas, o que ocorre ao cindir ficção e realidade. Nesse caso, tanto a ficção perde espaço para a realidade, como a realidade, por meio de formulações esvaziadas de sentido, perde espaço para a ficção. Temos aqui um caminho em direção à inautenticidade. 2) Viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado, ampliar as representações sobre si e sobre o outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e tendem para construções mais autênticas.

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