Entrevista: Mariana Brasil fala sobre o mercado do audiovisual

Em entrevista ao b_arco, a gerente de projetos e consultora Mariana Brasil, que trabalha com produtoras independentes na formatação de projetos, fala com muito entusiasmo e otimismo sobre o mercado do audiovisual hoje.
Para ela, o Brasil nunca teve tantas oportunidades para produção independente e a tendência é crescer. Um dos investimentos nessa área vem do governo com a criação de novas salas de cinema e a expansão da indústria cinematográfica e os editais. Ao mesmo tempo, segundo Mariana, é preciso ampliar a visão deste mercado e buscar alternativas como as janelas de exibição através das diversas mídias digitais até a compreensão do mercado de licenciamento de produto.
De 24 de novembro a 4 de dezembro, Mariana Brasil dará o curso Formatação e Apresentação de Projetos Audiovisuais para TV, no centro cultural b_arco.

Leia a entrevista na íntegra:

b_arco: Qual a expectativa para o mercado do audiovisual hoje?

MB: Sou muito otimista, porque o mercado já é grande e a demanda vai crescer muito ainda, estamos rompendo fronteiras, antes ou se produzia comercialmente para institucionais ou se produzia de forma autoral para cinema e documentários. Produzir para TV era nulo, no máximo como prestadores de serviços.
O governo tem investido em criação de salas de cinema, o que vai expandir a indústria cinematográfica e tem investido em outros tipos de exibição como TV e documentários, isso ajuda e amplia nossa capacidade de produção, mas além disso vejo com bastante otimismo as janelas que estão se abrindo para exibição com as novas mídias.
A meu ver o primeiro passo que precisamos é ampliar a  nossa visão deste mercado e não procurar somente a verba para a produção audiovisual, é preciso  entender que entramos na indústria do entretenimento que envolve a ampliação das janelas de exibição através das diversas mídias digitais até a compreensão do mercado de  licenciamento de produto. Veja por exemplo o Porta dos Fundos, o que é aquilo? Cinema, documentário, programa de tv, branded content?? É um novo formato que surgiu com uma nova mídia! Que pode virar peça de teatro, que pode ter camisetas e canecas licenciadas com a sua marca, que pode virar longa e por aí vai. Quem gerenciar esta marca (o produtor) precisa entender do mercado de entretenimento como um todo para poder ter visão de negócios e ampliar sua renda.
Não tem como ser pessimista num momento destes, o entretenimento está aí. Há uma frase que escutei outro dia dita pelo pessoal do próprio Porta dos Fundos no Roda Viva, que resume muito bem o que estamos vivendo: “ Há muitas janelas e pouca vista!!!!” ….  Vamos produzir as vistas!!!
 
b_arco: E especificamente para TV?
MB: O Brasil nunca teve tantas oportunidades para produção independente neste mercado, há investimento pesado do governo através do Fundo Setorial e há maior interesse das emissoras neste tipo de produção, pois apesar de já haver uma relação há uns anos era muito pequena a abertura e mais como prestação de serviço e não co produções e produção independente como hoje e esta procura aumentou claro pela nova lei 12.485 que exige este tipo de programação.
Mas como tudo que é novo ainda estamos encontrando uma forma de trabalhar e principalmente de pagar a conta. Ver como funciona um mercado já de sucesso como o modelo americano de TV é importante, afinal os canais a cabo que demandam esta produção são na sua maioria americanos, mas temos várias diferenças ao modelo praticado por eles e precisamos achar o nosso modelo.
Eu vejo tantas possibilidades diferentes que sempre me lembro das escadarias do artista Escher! Não há um modelo de negócios a ser seguido e a exibição em TV trás retorno financeiro para a emissora que explora os breaks comerciais e que não vai dividir este bolo conosco, esta é a forma deles ganharem dinheiro. Mas qual a fórmula do produtor independente ganhar dinheiro? Hoje temos uma série de possibilidades de pagar a conta da produção, temos leis de incentivos fiscais e temos o Fundo Setorial, mas o dinheiro do fundo é um empréstimo, precisamos devolver e a linha de financiamento para TV tem tido problemas nesta devolução justamente porque comercialmente na janela de exibição de TV quem explora isso são os canais.
A compreensão de que a TV é somente uma das janelas de exibição deste tipo de conteúdo é fundamental, podemos tentar através de outras janelas ampliar a renda de um programa, além de aproveitar outras mídias e licenciamento de produtos para completar esta renda e reforçar uma marca. Acredito muito no modelo de negócios entre empresas privadas e produtoras, pois associar uma marca a conceitos de um programa de TV, através de leis de incentivo fiscal ou patrocínio direto é benefício para os dois lados, o desafio que temos é entender como encontrar estas empresas e como oferecer além de um programa de TV um produto!
É uma junção de marketing com produção e a meu ver os produtores de audiovisual hoje estão se reinventando, não temos experiência nisso, até ontem produzíamos dentro de uma emissora, ou fazíamos cinema e documentários ou vídeos institucionais! Nesta transformação que estamos passando eu acredito que os canais ajudariam muito, inclusive em viabilizar suas co produções, incluindo o departamento comercial nas negociações com as produtoras independentes e ajudando assim a cruzar os interessados evitando inclusive conflitos comerciais que poderiam existir entre a empresa patrocinadora do programa e os anunciantes dos breaks.
 
b_arco: Faltam  profissionais nesse mercado com formação ou experiência no Brasil?
MB: Profissional da área audiovisual temos muitos! E muita gente boa!  Mas este modelo de produção independente para TV precisa de alguns ajustes, pois estamos em uma época de duas grandes mudanças que trazem estes desafios.
A primeira mudança é a junção técnica das duas escolas que tínhamos: cinema e TV. Muda muito a forma de escrever e produzir cada um destes formatos, mas toda a parte técnica e de pós produção que antes era de dois mercados com equipe e equipamentos completamente diferentes hoje se funde no mundo digital. Se eu contratar hoje um operador de câmera HD ele pode tanto vir da área de cinema quanto de TV, antes isso era muito distinto. Temos inclusive uma questão séria aí de valores para este profissionais com sindicatos diferentes etc….  Há uma mudança tão grande que há muito conflito também na nomenclatura dos profissionais. Um coordenador de produção em uma emissora de tv tem funções completamente diferentes em uma produtora independente, mas podem ambos estar produzindo séries para tv e aí? Qual a formação deste profissional? Quanto ele ganha e qual seu sindicato? Que DRT ele precisa ter? De TV ou cinema?
Já a segunda mudança é o que já falamos, o surgimento forte deste mercado de produção independente para TV,  temos uma deficiência séria que começa na educação. Como tudo isso é muito novo, as faculdades de rádio e TV não estão preparadas para formar estes profissionais da indústria do entretenimento e produção independente que falei, a formação ali é para você trabalhar dentro de uma emissora de TV, já a faculdade de cinema está mais ligada a produção independente e entretenimento, mas com foco em cinema e documentários e não formato TV. E aí? Qual o curso para quem vai produzir para TV não trabalhando na TV?.  É uma mudança mesmo e é deste desafio que vão nascer as oportunidades e as atualizações necessárias, mas temos que cobrar isso, os cursos livres e alguns cursos de pós estão ganhando na agilidade, me preocupa somente a formação do profissional como um todo, pois a impressão que eu tenho é que somente o dia dia tem trazido conhecimento e formação, prática é fundamental para qualquer profissional, mas é muito bom termos alguns conhecimentos e formação para evitar erros que trazem muito prejuízo financeiro e de  tempo. O conhecimento hoje para quem trabalha nesta área parece um monte de retalhos soltos, aprende-se um pouquinho aqui e outro ali, mas ver a colcha inteira montada com estes retalhos está difícil e para a formação dos produtores hoje estes cursos tem sido fundamentais.
Já na parte da criação não concordo com o que tem se falado por aí,  que o Brasil não tem roteirista para TV, tem muita gente boa já atuando no mercado, mas a demanda cresceu e precisamos de mais roteiristas, porque para o mercado de hoje não são realmente muitos os roteiristas para tv,  mas calma lá, esta demanda grande assim surgiu agora!
Antes roteirista para obra seriada eram somente os roteiristas que trabalhavam dentro das emissoras de TV fazendo especificamente este tipo de obra!  Roteiro para novela já é diferente! Roteiro para cinema, publicidade e vídeo institucional também! E era isso que produzíamos até então!
Outro dia participei de um curso com um americano justamente sobre criação e roteiro para obra seriada para TV, foi o excelente ver a abordagem que ele dava e mais que isso foi muito importante para todos que estavam na sala (maioria de roteiristas e diretores) participar de uma dinâmica que ele montou. A primeira coisa a fazer era escrever uma ideia para um série… foram várias ideias escritas e depositadas numa caixa, mas o mais interessante foi ver que 90% das ideias como o próprio cara falou eram para longas e não obras seriadas!!! Aquela turma de roteiristas que estava ali entendeu isso na prática, tenho certeza que foi uma quebra e ampliou a visão de todos! Foi incrível!!  Acho fundamental esta invasão de cursos e incentivos para os roteiristas que tem surgido, é importantíssimo que se abram oportunidades, mas tem que haver incentivo, dinheiro mesmo, porque o roteiro vem na parte do desenvolvimento do projeto e a maioria das produtoras independentes não tem ainda a verba, precisa investir dinheiro e na prática o que acontece é que acaba que os roteiristas fazem um projeto ou no risco ou ganhando muito mal! E aí como é que este cara vai pagar contas e ainda tentar se profissionalizar em cursos? No mercado americano este desenvolvimento é todo pago, inclusive o piloto! Então esta formação precisa de investimento, pode ser o de um profissional em si próprio, pode ser da produtora em sua equipe, mas isso acaba levando a gente para a discussão sobre investimentos no desenvolvimento desta indústria e para projetos, aí voltamos no Fundo Setorial, aí lembramos que a linha de investimento em TV não tem conseguido devolver o dinheiro…. e aí a discussão vai embora….
 
b_arco:  Quais as maiores dificuldades para se apresentar um projeto para o mercado? Grosso modo, quais os requisitos para um bom projeto vendável?
MB: Esta resposta passa pelas respostas que coloquei acima, muitas vezes bate na ideia do projeto, a gente sempre acha que a nossa ideia é incrível, mas os canais recebem projetos o tempo todo, pode ser que todos sejam bons, mas na hora dela ser apresentada temos que entender que estamos vendendo um produto e a própria visão de obra audiovisual criada por nós como produto já nos é estranha, mas é preciso incorporar isso, na tv ela é um produto, que se vier de uma boa ideia ela já é um bom produto! Mas ela tem seu público e precisa ter um plano de negócios para ser “comercializado”  e assim fazer com que um canal e/ou um patrocinador veja renda nisso tudo para investir no seu projeto. A maioria dos projetos que vejo estão incompletos, são ideias e não projetos ou ainda não possuem esta visão de produto.
Um outro ponto é que os canais também estão aprendendo a lidar com os produtores independentes e isso dificulta a apresentação dos projetos de forma adequada. Para eles também é um novo modelo de negócios e vejo muitos problemas na comunicação com os produtores. Isso já está mudando também, vários canais estão apostando na implantação de um departamento voltado só para esta relação e criando também plataformas digitais para agilizar a entrega do projeto.
 
 b_arco:  Há algum pré-requisito para fazer o seu curso?
MB: O curso é para quem está neste mercado audiovisual, mas eu foco em um público de produtora independente que tenha conhecimento dos termos do mercado, mas não especificamente para tv. Entretanto percebo que em todas as turmas tem pessoas que não tem este perfil e acredito que tenham aprendido bastante também pelo retorno positivo que recebo. Gosto de cursos claros e objetivos, é bastante conteúdo e intenso, por isso, para quem está no mercado é bom, o aprendizado continua no dia dia, o curso dá a visão geral e desmistifica alguns pontos, mas vai ser necessário praticar e ler mais sobre determinado tema  para absorver cada vez mais o conteúdo.
 

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