Projeto Escada

Projeto Escada

Projeto Escada

O espírito do lugar

A rota para cima e para baixo é uma e a mesma”.

Heráclito de Éfeso, fragmento 60

A extensão da rua Teodoro Sampaio a partir da Joaquim Antunes em direção ao largo da Batata foi realizada depois dos anos de 1950, no contexto de uma série de obras públicas que envolveram, por exemplo, o alargamento da rua Henrique Schaumann e a construção das vias marginais do Rio Pinheiros. Prevaleceram a retificação e a impermeabilização de uma topografia diversificada e atravessada por cursos d’água.

O desnível entre as ruas Dr. Virgílio de Carvalho Pinto e Teodoro Sampaio preserva a dupla memória do terreno antigo e da retificação. Instalada ali desde 2002, a Galeria Virgilio divide-se em dois espaços expositivos ligados por uma escada, que por sua vez remonta à irregularidade topográfica do entorno.

Fundada e dirigida por Izabel Pinheiro, a galeria abriu portas no mundo da arte para um grupo importante de artistas. Com freqüência, a Virgilio apresenta exposições individuais simultâneas nos dois pisos.

Em 2005, os espaços da galeria desdobraram-se no centro cultural b_arco, idealizado pelo artista Osmar Pinheiro e pelos irmãos Gabriel, Jiddu, Pablo, Tiago e Yan, filhos de Izabel e Osmar, a partir de conversas nostálgicas sobre a atmosfera intelectual dos bares próximos à Praça da República de Belém do Pará, uma capital brasileira onde é comum o uso de barcos pelos rios e baías de suas áreas continental e insular.

Nas noites belenenses discutia-se arte e cultura, assim como nas atividades promovidas pelo b_arco e nas exposições da Galeria Virgilio. O público desses espaços se encontra com outros fluxos no pequeno largo onde a rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto é interrompida pela escadaria que leva à Teodoro Sampaio, recentemente decorada com um gradiente de cor pelo artista Fernando Burjato, realizador do primeiro trabalho do Projeto Escada na Galeria Virgilio.

Na escada da galeria, Fernando Burjato criou uma anamorfose. Embora a técnica da perspectiva geométrica tenha sido utilizada pelos grandes mestres para produzir a ilusão da profundidade na superfície plana, o artista se valeu da verticalidade da escada para elidir a sua profundidade, criando uma ilusão de planaridade.

Os passos das pessoas sobre os degraus da escada bastam para atravessar a planaridade imaginária do trabalho de Fernando Burjato. Analogamente, os rios encobertos da capital paulista irrompem conforme o regime das chuvas, revelando sua natureza fluvial e seu relevo irregular, apesar do processo de urbanização que procurou retificá-la.

O Projeto Escada, idealizado pela equipe da Galeria Virgilio, segue o modelo do Projeto Parede do MAM-SP e oferece aos artistas o desafio de lidar com uma disposição espacial incomum. Pela escada se conectam os diversos espaços da galeria e do entorno, por ela se tem acesso à sala de reuniões com deslumbrantes pinturas encáusticas de Osmar Pinheiro, assim como ao setor administrativo do b_arco.

Passado e presente se presentificam no futuro, o tempo futuro está contido no passado, conforme o poema de T.S. Eliot. Cada trabalho do projeto abre um caminho a mais no sentido da experimentação artística e do pensamento crítico que compõem o espírito do lugar.

José Bento Ferreira, setembro de 2018.

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