“Japonês da pátria filho”, por Paulo Nogueira. Professor de literatura do B_arco entrevista escritor japonês Haruki Murakami, um dos maiores nomes da literatura contemporânea

“Japonês da pátria filho”, por Paulo Nogueira. Professor de literatura do B_arco entrevista escritor japonês Haruki Murakami, um dos maiores nomes da literatura contemporânea

Haruki Murakami, o maior escritor japonês vivo, é bem pequenininho. De corpo compacto e maciço, não chega ao metro e setenta. Aparenta menos de que seus 63 anos, mas sem aquela tez acrílica dos botox da vida. Afável e polido, é visivelmente tímido. Para delinear o perfil dele, recorro a uma artimanha: seguir as migalhas de pão semeadas nos meandros da floresta das suas 47 obras – jazz, humor, literatura policial, Scott Fitzgerald, expatriamento.  No fim, a empatia vai ser tanta que cruzaremos a meta ombro a ombro e a parada será resolvida no photofinish. Aliás, Murakami é maratonista (perdão, ultramaratonista – a ultramaratona implica 100 quilômetros de corrida. Bem, aí cessam as empatias, devido à embaraçosa diferença dos piques).

Tímido não quer dizer tíbio. Esse tampinha perfilado à minha frente, com um sorriso inevitavelmente amarelo engastado no rosto jovial, desafiou um dos establishments culturais mais sedimentados do mundo e aguentou o tranco: riu por último e melhor. Traduzido para 40 línguas, é arroz de festa nas apostas anuais para o Nobel. A publicação de cada título dele é precedida de salivação e foguetório planetários, dignos do lançamento de uma nova geringonça modernosa da Apple. No final do ano passado, na véspera da distribuição de seu romance mais recente, 1Q84, milhares de tietes pernoitaram na calçada das principais livrarias de Nova York, como sucedâneos adultos dos tietes de Harry Potter. É impossível pensar em outro escritor contemporâneo cujas estreias se transfigurem em eventos culturais nos seis continentes (com a possível exceção da Antártida).

Uma das idiossincrasias da obra de Murakami é a combinação inopinada de realismo meticuloso e fantasia quase dadaísta, em doses mais ou menos cavalares. Quando a gente reflete melhor, cai a ficha: tem tudo a ver com o Japão, um país onde os oximoros andam de braço dado (a própria palavra ‘oxímoro’ soa japonesa…). Em Tóquio, por exemplo, a tradição fossilizada convive com o futurismo visionário. Bairros povoados por tipos mais fleumáticos do que um mordomo vitoriano confinam com enclaves barras-pesadas (como Kabuki-Cho, apinhado de cafetões, meretrizes e mafiosos com pinta de ninjas). Introspectivos, os japoneses idolatram a privacidade e o espaço individual – mesmo no metrô, em cujos vagões da hora do rush não cabe nem mais um quark. Em contrapartida, nas metrópoles nipônicas proliferam signos lúdico-pueris, como os inacreditáveis gatinhos e demais bestiário dos semáforos (as histórias em quadrinhos impregnam todo o cotidiano japonês). Ou a emblemática e breguíssima estátua do cão Akita, perto da estação Hachi e do shopping Shibuya, um dos pontos de encontro mais populares da capital japonesa. Consta que o totó existiu de verdade, e permaneceu naquele local anos a fio, esperando com fidelidade canina o dono que já morrera. A maioria dos japoneses acha essa historinha tão sublime como a mais fabulosa das cosmologias.

Embora não se reduza a ela, Murakami é um produto singular dessa lambança antropológica, um avatar do baby boom do Japão pós-guerra, com sua pororoca de americanismo galopante e ancestralidade milenar. Seu avô era um sacerdote budista, mas tanto o pai quanto a mãe lecionavam literatura japonesa. Durante os faniquitos proverbiais da adolescência, Haruki deu uma banana para a cultura nipônica, perfilhando conscientemente a influência ocidental, sobretudo a made in USA. O inglês dele tem o timbre diamantino de Oxbridge (traduziu Fitzgerald, um de seus mais fortes fraquinhos), com léxico e pronúncia impecáveis, mesmo nos temíveis erres em que os orientais costumam derrapar.

O próprio Murakami entrega o ouro: “Quando era jovem, não ligava absolutamente nada para os ficcionistas japoneses. Queria fugir da nossa cultura, que considerava conformista e tediosa. Apaixonei-me pela cultura ocidental: jazz, Dostoiévski, Raymond Chandler, Kafka. Essa é que era a minha praia, a minha terra da fantasia. Agora qualquer um vai para os Estados Unidos, mas nos anos 60 a conversa era outra. Assim, eu viajei para a América primeiro através da música e da literatura. Absorvi até o tutano o estilo dos escritores ocidentais.”

Negligenciei a dica de um amigo (não por sovinice mas por simples distração), para que levasse uma lembrancinha às duas secretárias de Murakami e apareci de mãos abanando. Apesar disso, ele se manteve um amor de pessoa, mesmo quando mencionei dois de seus desafetos entre os pares japoneses. O primeiro é Mishima, que cometeu seppuku em 1970, depois de uma destrambelhada tentativa de golpe de Estado, que acabou mal e porcamente. Mishima era ao mesmo tempo ultranacionalista e macaca de auditório da literatura francesa. Murakami detesta-o cordialmente. O outro é o Nobel da literatura Kenzaburo Oe, que baixou o sarrafo nos primeiros romances de Murakami, brandindo o anátema de “escritor pop” – ou seja, um pastel de vento, com a profundidade de um dedal. Murakami compreensivelmente não engoliu o sapo, mas, por outro lado, nunca autorizou a tradução dos seus dois primeiros títulos para o inglês. Para bom entendedor, meio ideograma basta.

Não obstante meu mico diplomático, o meu interlocutor não arqueou uma sobrancelha nem pipocou. Toco o bonde: “Com seu primeiro livro (não editado em português), ganhou um prêmio logo de cara. Ficou amigo de outros escritores japoneses?” “Não.” “Não tem nenhum amigo do ramo a quem mostre seus manuscritos?” “Nenhum. Mostro-os à minha mulher. Yoko. Ela está para mim como Zelda estava para Scott Fitzgerald.” Recordo-me de que Zelda morreu num manicômio, doida varrida, e faço figa para que não aconteça o mesmo à madame Murakami.  Mas continuo cutucando a onça com vara curta: “Nunca se sentiu parte de uma comunidade de escritores?” “Jamais. Sou um lobo solitário. Desagradam-me os cenáculos, capelinhas, castas e tribos literárias. Em Princeton, havia uma espécie de lanchonete, onde eu costumava tomar as refeições. Joyce Carol Oates e Toni Morrison apareciam por lá, e eu ficava tão intimidado com a presença delas que não conseguia dar uma garfada. Saía de fininho, morrendo de fome…”

Murakami tem um escritório em Tóquio, onde faz contatos editoriais, escreve ocasionalmente e esporadicamente recebe a imprensa – nunca, jamais, em tempo algum a televisiva, que considera excrementícia e não quer ver nem pintada. Fica no sexto andar de um edifício atarracado e vetusto na rua principal de Aoyama, um bairro fervilhante de butiques, que os nativos gostam de comparar ao SoHo nova-iorquino (uma analogia estapafúrdia).

Continuo com a pulga atrás da orelha por causa da simbiose Oriente-Ocidente na obra de Murakami. Os japoneses são tão ciosos de sua identidade que têm até um alfabeto específico para palavras importadas, o katakana. Ou me engano muito, ou é aí que mora o perigo. Será?  “Já é um lugar-comum os críticos o descreverem como o mais ocidental dos escritores orientais. De uma vez por todas, como encara sua relação com a cultura de seu país? “Nunca me passou pela cabeça escrever sobre estrangeiros ou países estrangeiros. Meus personagens são japoneses, assim como o cenário onde nascem, vivem e morrem. Admito que meus livros podem ser bastante acessíveis aos ocidentais, porém minhas histórias não são ocidentalizantes. E inúmeras referências que soam ocidentais aos leitores americanos ou europeus – os Beatles, por exemplo – já são também parte integrante da cultura japonesa. Quando escrevo sobre pessoas comendo um Big Mac num McDonald’s, os leitores ocidentais estranham: “Mas por que esse personagem está comendo hambúrguer em vez de tofu?” Esquecem que comer hamburguers é normalíssimo para nós, um hábito cotidiano…”

Não vi como era nos anos 60, mas hoje os japoneses são craques no sincretismo cultural. Nas tardes de domingo, no jardim Meiji em Harajuku, um formigueiro de jovens e coroas pratica o “cosplay”, uma arte performática na qual os participantes vestem fantasias e acessórios estrambólicos para representar um determinado personagem, cujas fontes principais são os mangá, os hentai e as histórias em quadrinhos de modo geral. Ora, a poucos metros dali, outra tribo saracoteia alegremente paramentada de rockabillys (a fusão de rock e country, cujo padroeiro é Johnny Cash). Tudo pacífico – tanto que volta e meia uns examinam os outros de soslaio e trocam de lugar numa promiscuidade edênica.

Pouco antes de terminar os estudos, Murakami abriu um café em Tóquio – à noite, a simpática espelunca virava um clube de jazz, chamado Peter Cat. Lá, o futuro escritor assobiava e chupava cana: “Eu cortava cebola em rodelas fininhas como pétalas – e não chorava nunca! Também fazia coquetéis e aperitivos. E de vez em quando dava uns toques no piano. Ainda hoje escrevo como quem toca.” Ele pode não subscrever Paul Valéry, segundo o qual toda arte aspira à música – mas é fissurado num acorde. Muitos de suas obras têm designações ou temas derivados da música clássica, como as três seções de Crônica do pássaro de corda: a pega ladra (como a ópera de Rossini), O pássaro enquanto profeta (de uma peça para piano de Schumann) e O caçador de passarinhos (personagem de Mozart em A flauta mágica). Outros títulos da “murakamia” remetem ao universo pop, como nos romances Dance, Dance, Dance(alusão a uma canção dos The Dells, como me garantiu o autor, e não a um sucesso dos Beach Boys, como se presume por aí), Norwegian Wood (a partir da música dos Beatles) e A sul da fronteira, A oeste do Sol (referência a um hit de Nat King Cole). Um dos seus contos mais fascinantes intitula-se A garota de Ipanema 1963-1982 (eis o comecinho, em tradução diletante):

“Em 1963 a garota de Ipanema contemplava o mar. E agora, em 1982,  observa o mar do mesmo jeito. Ela não envelheceu desde então. Está confinada numa imagem e flutuando no oceano do tempo. Se houvesse envelhecido, teria hoje quase quarenta anos. Claro que é possível que não esteja tão velha, mas pode não já não ser uma coisa tão linda e cheia de graça como costumava ser. Talvez tenha três filhos. O bronzeado não é bom para a pele.Talvez ainda possa ser considerada uma beldade, porém não tão viçosa quanto há vinte anos.”

Nem pensem que a questão passará batida. “Do ponto de vista literário, o que significa para o senhor o jazz e a música em geral?”Uma influência muito, muito forte. Ouço jazz e outros gêneros desde os treze anos. Quis ser músico, mas não tocava realmente bem nenhum instrumento, por isso me tornei escritor. Escrever um livro é como tocar uma música: primeiro abordo o tema, depois improviso, em seguida há uma conclusão de algum tipo. Além do jazz, também gosto de música clássica, especialmente barroca. Ah, e no meu romance Kafka na praia, o jovem protagonista ouve Radiohead e Prince. Fiquei espantado ao saber que alguns membros dos Radiohead gostam dos meus livros…”

Murakami estudou Teatro na Universidade de Tóquio. É um prédio insípido, amarelo-banana, com uma torre metida a besta e janelas ogivais. Pertinho dali, a um tirico de garrucha (nem dez minutos a pé), fica o alojamento privado de estudantes onde o escritor viveu nos anos acadêmicos. Outro edifício borocoxô, com uma fachada envidraçada de aquário. Não mudou uma vírgula em quarenta anos. Para inúmeros jovens japoneses, aquilo é um santuário. Trata-se do cenário de Norwegian Wood, que a inércia de alguns críticos batizou de “O Apanhador no campo de centeio de Haruki Murakami”. OK, o fato de Murakami ter traduzido para o japonês o clássico niilista de J. D. Salinger foi uma mão na roda. Norwegian Wood turbinou Murakami de autor cult a best-seller gorgolejante. A obra foi editada em dois volumes separados, mas vendidos em conjunto – um de capa vermelha e o outro de capa verde. Tendo em conta o número de cópias vendidas, é como se cada lar no Japão possuísse exemplar.

Acossado pela ambivalência da notoriedade, o escritor decidiu esfriar a moringa. Sem choro nem vela, viajou pela Europa e se instalou nos Estados Unidos, como “fellow” da Universidade de Princeton, onde acampou durante cinco anos. Foi ali que escreveu A sul da fronteira, a oeste do SolCrônica do pássaro de corda(para mim seu melhor livro até agora). Levanto a familiar bola do expatriamento, uma assistência perfeita para ele cortar. “Como é escrever no estrangeiro?” “Bem, vivi vários anos nos EUA como um estranho. Esse ?estranhamento’ sempre me seguiu como uma sombra, e o mesmo acontece ao protagonista de Crônica do Pássaro de Corda. Quando penso no assunto, concluo que, se o livro fosse escrito no Japão,  seria uma obra muito diferente. O mais engraçado é que a estranheza que sentia na América é diferente da estranheza que sinto ainda hoje no Japão. Lá, essa sensação era muito mais óbvia e clara, e isso me proporcionou muito mais acuidade na percepção de mim mesmo. De certa forma, escrever aquele livro foi um processo de autodesnudamento, um strip-tease ontológico.”

Na última década, Murakami entesourou prêmios badalados em tudo quanto é canto – fora o Nobel, no qual ele continua batendo na trave. No ano passado, embolsou o prestigioso prêmio Internacional da Catalunha. Antes, já recebera o prêmio Kafka, em Praga, e os doutoramentos honoris causa das Universidades de Liége e Princeton. Durante a cerimônia na Catalunha (onde ocorreu o meu segundo encontro com o autor), Murakami condenou a política nuclear do Japão, invocando o desastre nos reatores de Fukushima. Se a maior parte dos jovens japoneses não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe do que aconteceu em Hiroxima e Nagasaki, não é por falta de pedagógicos pitis do escritor. Em Barcelona, Murakami recordou o holocausto dos “hibakusha” (como são conhecidas as vítimas de Hiroxima e Nagasaki) e botou a boca no trombone: “Em vez de as pessoas se questionarem sobre a segurança da energia nuclear, descartam como ?sonhadores irrealistas’ aqueles que se opõem a ela.”E não ficou só no berreiro: doou os 80 mil euros do prêmio aos desabrigados que o cataclismo gerou.

Por vezes acusado de vender sua alma ao Belzebu ocidental, o patriotismo de Murakami não perde uma oportunidade de bater o ponto. Ele resolveu encerrar o autoexílio e regressar à base quando soube do terremoto de Kobe, em 2005, logo seguido do ataque terrorista da seita Aum Shinrikyo contra o metrô de Tóquio, com gás Sarin. Escreveu uma obra de não ficção inspirada pelo segundo episódio, UndergroundÉ um livro magistral e excruciante (só há edição portuguesa), alinhavado em entrevistas com algumas vítimas e membros da seita.

O patriotismo de Murakami não tem um grão de chauvinismo. Ele dá uma no cravo e outra na ferradura dos traumas coletivos. Se em Undergroundtransparece um amor ressabiado e sofrido pelo Japão, em Crônica do pássaro de corda o escritor passa a pente fino – ainda que num registro romanesco e não historiográfico – o melindroso episódio dos crimes de guerra japoneses em Manchukuo, no nordeste da China, durante a II Guerra Mundial. Por essas e outras, o autor de Norwegian Wood acabou assumindo, devagar e sempre, o estatuto de consciência nacional do Japão. Nada mal para quem, no início da carreira, amargava o rótulo de escritor pop.

Essa dimensão supra-literária de Murakami passou por uma prova dos nove quando, em 2009, lhe foi atribuído o Jerusalém Prize – pouco depois de Israel bombardear a Faixa de Gaza. Para numerosos autores, a honraria poderia significar uma roubada daquelas. Houve protestos no Japão e em muitos outros países, incluindo ameaças de boicote à sua obra, se aceitasse a distinção. Murakami comprou a briga e viajou para Jerusalém, se tornando o primeiro escritor não europeu a ganhar o prêmio. Durante seu discurso de quinze minutos, explicou que compareceu à cerimônia “por que falar é melhor do que calar.” E condenou a política de Israel para a Palestina, nas barbas dos mais proeminentes e crispadíssimos dignitários israelenses. Consta que o silêncio na sala era tanto que dava para ouvir o tique-taque dos relógios de pulso. No final, foi ovacionado pela esmagadora maioria das setecentas pessoas presentes. Claro que tem sempre um chatonildo: Murakami ainda estava dobrando as folhas do discurso quando um homem idoso se levantou intempestivamente, vociferando que se sentia ultrajado com as palavras do premiado e que este cuspia no prato que comia. Murakami considerou que já tinha vendido o seu peixe e se absteve de rodar a baiana.

Voltando à vaca fria, peço ao meu interlocutor que descreva um típico dia na vida de Haruki Murakami. “Quando engato a primeira para escrever um romance, acordo às quatro da manhã e trabalho durante umas seis horas seguidas. À tarde, corro dez quilômetros ou nado 1500 metros – ou, ainda, faço as duas coisas. Depois leio e ouço música. Vou dormir às nove da noite. Mantenho essa rotina todo santo dia, sem falhar um. A própria repetição desse ritual é importante – uma forma de autosugestão. Obviamente, para conservar essa disciplina durante um período relativamente longo – de seis meses a um ano -, é necessária força mental e física. Nesse sentido, escrever corresponde a uma espécie de treino de sobrevivência. Pode parecer esquisito, mas para mim a sensibilidade artística implica vitalidade física.”

Penso com os meus botões que Mishima também era entusiasta do adestramento corporal: malhava mais do que um desses trogloditas burraldos do Big Brother e Fazenda, confundindo cultura com culturismo. Mas a relação de Murakami com os exercícios físicos é desencanada e terapêutica. Mais até: algo como as duas faces de uma mesma moeda de yen: uma literária e outra esportiva.

Ele se compraz em contar a história de sua epifania vocacional, durante um jogo de baseball entre o Yakult Swallows e o Hiroxima Carp, no Jingu Stadium. No preciso momento em que o rebatedor americano Dave Hilton atingiu a bola com o taco, as musas aterrissaram em Murakami de mala e cuia. Ele desembestou para o computador arquibancadas abaixo, com o primeiro romance quicando na ponta da língua. Nunca mais parou de correr, tanto em sentido figurado como literal. Aos 33 anos, virou maratonista e até ultramaratonista, participando da prova de 100 quilômetros em redor do lago Saroma, em Hokkaido. Em 2008, já era um papa-léguas tão calejado que publicou o ensaio De que falamos quando falamos de corrida, uma obra que só de folhear a gente fica com cãibras. Depois disso, o triatlo parecia canja e não deu outra: ele se tornou também um triatleta.

Vamos nessa que é bom à beça: “O senhor começou a correr para combater o proverbial sedentarismo dos escritores?” “Você acertou na mosca: a primeira motivação foi por que não queria embolorar e empenar, como tantos escritores. Mas depois a atividade física intensa se enredou umbilicalmente na minha criatividade artística. Tome os casos de Michael Jordan ou Roger Federer, por exemplo. Claro que o talento inato conta, mas são necessárias muitíssimas horas de prática para que esse dom se destile em verdadeira grandeza. No processo criativo acontece mais ou menos a mesma coisa. Além do talento, a criação de um grande romance requer outro fator crucial que é o foco, a capacidade de concentrarmos todas as nossas aptidões e energias num determinado objetivo num determinado momento. Mas uma terceira virtude decisiva é a resistência. Se você não consegue cumprir a ascese de escrever quatro horas por dia e conservar o foco durante um ano ou dois, pode tirar o cavalinho da chuva e mudar de profissão. Muito do que aprendi sobre a escrita, aprendi enquanto corria. São lições bem práticas. Até onde posso me pressionar? Quanto descanso é apropriado, e quanto é excessivo? Tenho certeza absoluta de que, se não fosse um corredor de longas distâncias, a minha obra teria sido completamente diferente.”

Ainda estou de olho na receita do bolo. “O senhor faz muitas revisões nos manuscritos dos romances?” “Obsessivamente. O primeiro rascunho é uma bagunça completa. Corrijo e corrijo. Faço umas cinco ou seis versões. Acho que o padrão é mais ou menos este: seis meses escrevendo a primeira versão, depois mais um seis ou sete meses escrevendo as seguintes que forem necessárias. Creio que sou até bastante rápido. Mas me alheio totalmente de tudo que não seja a escrita.”

1Q84, o último romance de Murakami, ecoa a distopia canônica de George Orwell: em japonês, 1Q84 se pronuncia “ichi kyu hachi yon“, a mesmíssima articulação de 1984. Conta a história de Aomane, uma professora de artes marciais que é assassina nas horas vagas e acaba resvalando para uma espécie de outra dimensão quântica, e de Tengo, que leciona matemática e dá uma mãozinha a uma jovem de 17 anos na disputa de um prêmio literário. As rotas de Aomane e de Tengo convergem numa história de amor de ying e yang.

Por falar em Aomane, como é a representação do mulherio na obra de Murakami? Será que ele é capaz – ou se interessa – do travestismo literário, como Chico Buarque ao assumir personas femininas nas canções? Murakami cruza os braços no peito (uma atitude defensiva, segundo a vulgata psicológica). “Na minha prosa, as mulheres são médiuns.” Engulo em seco e gaguejo mentalmente: será que ele quer dizer médium como, sei lá, Chico Xavier? Mas o escritor entrega o ouro: “A função de uma médium é fazer algo se manifestar através dela. O protagonista é conduzido a um determinado momento do destino pela médium, e as visões que ele descortina lhe são apresentadas por ela. Repare: em minha opinião, o sexo é uma espécie de autocomprometimento. Se o sexo é bom, suas feridas serão curadas e sua imaginação é revigorada. Trata-se de um rito de passagem para um patamar mais elevado e mais gratificante. É nesse sentido que nas minhas histórias as mulheres são médiuns, arautos de um mundo virtual. E é por isso que elas sempre vão até o meu protagonista, em vez de o meu protagonista ir até elas.”

A mulherada é um assunto demasiado sério para os homens – daí, provavelmente, o tom solene e hierático, quase litúrgico, da resposta acima. Felizmente, em seus livros Murakami é bem mais irreverente e burlesco, contrastando com os outros escritores japoneses, que tendem a ser graves ou mesmo lúgubres, quando não patibulares. Confidencialmente, creio que o segredo dele é não se levar muito a sério, ao contrário de seus colegas (nipônicos ou não),  que geralmente se julgam demiurgos. “Ah, adoro escrever diálogos cômicos – é uma delícia. Porém, se todos os meus personagens fossem humorísticos, descambariam na chatice. Para mim, os personagens cômicos funcionam como um estabilizador. Você precisa estar calmo para ser espirituoso – se estiver nervoso, será tempestuoso. Por outro lado, quando você é sério, você pode ser instável- e esse é o problema da seriedade. Mas, quando é humorístico, é estável. O que não impede que combata uma guerra com um sorriso nos lábios. Gosto que meus leitores riam de vez em quando. Muitos dos meus leitores japoneses leem meus livros no trem, quando vão da casa para o trabalho ou vice-versa. O trabalhador médio passa duas horas por dia num trem, e ocupa essas horas lendo. É por isso que no Japão os meus livros são editados em dois volumes – um único volume seria pouco pesado para transportar.  Há leitores que me escrevem contando que deram gargalhadas no trem lendo uma obra minha – e confessam que ficaram envergonhados. São as minhas cartas favoritas! A cada dez páginas, tento fazer cócegas no leitor.”

1Q84 tem cacoetes de romance policial. E, no melhor estilo Columbo (o personagem da série de TV calcificado por Peter Falk, que esgrimia a pergunta decisiva e desmascaradora quando já estava indo embora), me despeço de Murakami assuntando sobre a influência da literatura policial na obra dele. “Avassaladora. Apaixonei-me pelo gênero quando ainda era estudante. O primeiro livro que li em inglês foi The Name Is Archer, de Ross MacDonald. Aprendi muitíssimo com essas obras. Ao mesmo tempo, lia Tolstói e Dostoiévski. Portanto, para mim no fundo eram a mesma coisa. Dostoiévski e Raymond Chandler. Até hoje, o meu ideal na ficção é juntar Dostoiévski e Chandler em um só romance.”

No caso dele, o crime compensa. Pois seus cúmplices chamam-se leitores. E os seus leitores são milhões: mais conhecidos como  terráqueos.

* Paulo Nogueira é escritor e crítico, autor do romance O amor é um lugar comum.

Entrevista concedida para o Blog IMS em dezembro de 2012

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