Micropolíticas cotidianas: diálogos sobre agir, pensar, viver e julgar no cotidiano. Por André Resende.

Micropolíticas cotidianas: diálogos sobre agir, pensar, viver e julgar no cotidiano. Por André Resende.

Micropolítica é a capacidade que cada um tem de interferir em seus hábitos cotidianos partindo da construção de um entendimento sobre como deve AGIR, PENSAR, VIVER, e INTERAGIR com as pessoas, diante das exigências sociais e dos modelos existenciais. Esse será o assunto abordado no curso Micropolíticas Cotidianas, ministrado por André Resende no b_arco, entre os dias 16 de fevereiro e 15 de junho de 2019.

André Resende é escritor, tem onze livros publicados, os mais recentes, dois romances: Diasassados (inMediaRes, 2017) e Penélope Africana (Cubzac/CEPE, 2018); oito peças e roteiros. Também atua como psicanalista, ampliando seu trabalho à teoria dos afetos, às habilidades emocionais e aos estágios de moralidade, criando com atos teatrais, sequências didáticas e debates com alunos do ensino médio e universitário, em escolas e faculdades. Deste ambiente, surgiram os grupos de diálogos. Um deles, Micropolíticas Cotidianas. André, comenta: “No Século XX, experimentamos um significante-dominante, a padronização do imaginário, em que todos nós tínhamos de viver, agir, pensar, julgar e interagir a partir de padrões que determinavam nossos desejos, criando uma servidão voluntária. No Século XXI, o modelo parece ter rompido o padrão anterior, mas, é bem verdade, seguiu um plano de evolução. Se antes havia uma padronização do imaginário, agora, há um imaginário padronizado que nos diz que devemos aspirar e desejar aquilo que todos aspiram e desejam. Antes, fomos enquadrados para desejar o que nos era oferecido. Agora, devemos confiar naquilo que todos desejam, diga-se, dentro de seus guetos de consumo e de identificação cultural. Cada vez mais se trabalha e se consome deixando para amanhã o compromisso de saldar a felicidade do presente, movida pelo consumo facilitado. Como lidamos com dinheiro, com crédito parcelado, com a gentileza, com o amor, a tolerância, a compaixão, os amores possíveis, as relações sociais e afetivas, com a civilização lixo, a aposentadoria, viagens, parceiros, amigos, sócios, com os consumos materiais, com o sucesso, entre outros temas sobre trabalho, lazer, bem-estar, conhecimento e informação.” Veja mais sobre o que pensa o escritor e sobre o grupo de diálogos que conduzirá aqui no b_arco, na entrevista que fizemos com ele:

 

B_ARCO. Um grupo de diálogos, não um curso, nem uma cena terapêutica de grupo, para falar sobre agir, pensar, viver, julgar e interagir no cotidiano. Por que denominou o grupo de diálogo de Micropolítica Cotidiana?

ANDRÉ RESENDE. Alguns anos atrás, quando surgiu, o grupo de diálogos Micropolítica Cotidiana tinha a pretensão de ser aulas sobre temas comuns a todos no dia a dia. Decisões, escolhas, hábitos, enfrentamentos, desilusões, entusiasmos. Trabalhava com temas tipo Amores Difíceis, Conflitos Inevitáveis. Eram pretensiosos. Isso ficou para trás. Em lugar de falar de amores difíceis, por que não pensar como está para ter um amor fácil e tranquilo? Por que falar de conflitos intermináveis e não de negociações possíveis?

B_ARCO. Então, os conceitos não são preestabelecidos e os temas são circulares?

ANDRÉ RESENDE. Os conceitos nem sempre são conceitos, apenas expressões, e os temas variam, um pouco conduzidos por minha vontade na hora de escolher, mas com base nas órbitas circulantes de informação e de conhecimento acessíveis sobretudo na mídia. Talvez você queria me perguntar se estamos falando do conceito de micropolítica estabelecido por Giles Deleuze e Félix Guattari, em Mil Platôs, de que somos segmentarizados de todas as maneiras, em todas as direções, por todos os lados. Lá, assim entendo, micropolítica está mais para uma expressão que para conceito. Lá, eles consideram que todas as atividades cotidianas são segmentarizadas. Se habito, circulo, trabalho ou me divirto, aí está uma segmentarização. Simplesmente, não vejo nessa dimensão, passei o tempo necessário para entender que não era por ali, com eles. E os temas que vêm são colocados em plano de acontecimento comum a todos, com tomadas de decisão diferentes, mas nunca distanciadas de um padrão de interesse. Sou mais tentado pelos termos guetos de consumo e de identificação cultural.

B_ARCO. Você criou um outro caminho?

ANDRÉ RESENDE. Em meu livro Mundo Enquadro – o lugar dos símbolos nas coisas reais, tratei, em algum lugar dele, de duas dinâmicas sistêmicas no século XX, como motores de um significante-mor-dominante. Primeiro tivemos a padronização do imaginário, em que as pessoas escolhiam as mesmas coisas para ter, os mesmos propósitos para viver, os mesmos modelos para pensar. Agiam conforme a ordem dada. Em um segundo momento, não havia mais padronização do imaginário, pois já francamente imaginamos dentro de um padrão, mesmo que esse padrão dê a opção de haver diversos. Com o imaginário padronizado, aí sim, agimos por segmentação, escolhendo quem somos ou quem queremos ser em um determinado conjunto social através das marcas que usamos que se associam à ética que seguimos, ao dever moral implícito na forma como nos vestimos. A ordem dada é a que queremos seguir. Onde pensamos ser diferentes ou mais antenados com as necessárias transformações da sociedade, também aí estamos dentro de um modelo de imaginação padronizado. Em outro contexto, foi dito que só na sociedade se pode se individualizar e não é assim porque cada um de nós precisa de um modelo de evolução para seguir vivendo, agindo, pensando e julgando. Para seguir interagindo, isto é, confiando nos outros e em tudo mais. Para este grupo de diálogos, repetindo, Micropolítica Cotidiana é a capacidade que cada um tem de interferir em seus hábitos cotidianos partindo da construção de um entendimento sobre como deve agir, como deve pensar, como deve viver, como deve julgar, como deve interagir com as pessoas e diante das exigências sociais e dos modelos existenciais.

B_ARCO. Quais foram as referências intelectuais, então?

ANDRÉ RESENDE. Os grupos de diálogos não têm essa pretensão de excluir ou incluir pensadores em torno de conceitos ou de expressões como Micropolítica ou Cotidiano. Meu conceito de cotidiano está mais próximo de Agnes Heller, filósofa de origem húngara, que, em determinado momento, observou que a ética é uma construção baseada nas relações sociais que, como sabemos, não são iguais, nem seguem ao pé da letra, ou da expectativa, ao padrão de ciência, colhendo em meio a aleatórios iguais que sirvam de modelo para aceitar como verdade e, assim, forjando conteúdos morais como ordens sociais. As relações sociais e pessoais são movidas por exercícios de negociação carregados de verdades feridas e necessidades de conjunto. Nelas existem os lugares de vítimas e de verdades feridas. E existem os lugares de entendimento e de aceitação de interesses em comum que sinalizam haver no ato uma proposta de evolução e transformação. Isto é micropolítica. Só os intransigentes por demais aflitos em suas verdades feridas acreditam ainda que são necessários atos de conflitos para chegar a entendimentos. Que o conflito antecede a tranquilidade e a uma proposta em comum. Os grupos de diálogos estão para que, falando de si e ouvindo o outro, cada um possa criar uma necessidade de transformação, sem que isso seja um propósito ou meta, porque, é possível, alguém pode ir ao grupo e, em seu lugar de ser, resistir a todos, no seu limite de tempo e dentro do princípio da gentileza, e concluir que pensando sozinho pensa cada vez melhor.

B_ARCO. Você fala que são diálogos sobre como se deve agir, como se deve pensar, como se deve viver e como se deve julgar.

ANDRÉ RESENDE. E como se deve interagir. Mas não vamos dar fórmulas, nem truques. Tampouco fazer do lugar do deixa que eu conto como sinto na minha vez um lugar de arrodeamento e encruzilhada intelectuais – ou coisa ligeiramente parecida. É um diálogo. O grupo abre a porta para certos temas, a pessoa passa por ela como achar que deva. No Górgias, de Platão, Sócrates fala para o retórico que em qualquer ato de pensar em agir ou agir em pensar se mantêm quase como dilemas as camadas de existência de como devo agir, como devo pensar, como devo viver.  Hannah Arendt, alguns anos atrás, fez um acréscimo: como devo julgar. O como devo interagir veio com outros, de onde posso ver e confortavelmente aceitar, a partir dos estágios de moralidade para uma ética da comunicação.

B_ARCO. O julgar e o interagir são acontecimentos novos?

ANDRÉ RESENDE. Sim. Esse como devo julgar parece uma opção ao não julgue para não ser julgado, mas não é por aí. Cada pequeno ato é um ato de política, nesta sociedade que tem como utopia de que somente em sociedade se pode se individualizar e de que, estando em um lugar de não interação ou correspondência com os deveres morais incondicionados, se tem autonomia para dizer não às pessoas. As micropolíticas são dadas como haveres morais a cumprir em nome do bem-estar, da evolução e da prosperidade. Então, se se fala de trabalho e não de amor, aceita-se que trabalho está em um lugar de princípio, uma inscrição de distinção que melhor representa o valor de reconhecimento em sociedade. Se se fala de servidão, se fala da exaltação de que o trabalho dignifica a pessoa, mas pode ser também a essência e a garantia de um modelo de controle social consentido e aceito. Calamitosamente, aceita-se trabalhar em um modelo de servidão, como se aceita estar em um lugar de servidão para que o modelo de evolução social se associe com formação de riqueza, acumulação de capital, aquisição de bens materiais e patrimoniais. Não importa o tamanho, se em reais parcos ou bilhões endinheirados. Como devo agir, como devo pensar, como devo viver, como devo julgar, em um modelo de diálogo, se junta ao como devo interagir. Então, abrimos os grupos com três temas: gentileza, vítimas e verdades feridas. Cada um pode vir com suas certezas baseadas em fatos reais ou em conclusões científicas, ou com verdades feridas.

B_ARCO. Quais temas farão parte deste atual grupo de diálogo?

ANDRÉ RESENDE. Gentileza, verdades feridas e vítimas sempre presentes. Trabalho e amor fazem parte porque é quase certo que nos metemos demais no trabalho para dar respostas amorosas, nem sempre a entes reais e vivos, ou para fugir das reais possibilidades de conviver com um outro, ou com outros, sendo mais emoção, afetos e, vamos dizer assim, calor humano. Coisas novas aparecem, enroladas em nome da racionalidade, da razão, dos racionalismos. Coisas como Vida Compartilhada, Amigos, Comer Bem, Dinheiro, Dívidas, Opiniões Divergentes, Fazer algo com as pessoas, não ter carros, paixão e amor, desacelerar. Serão doze encontros, neste semestre, a começar em setembro.

B_ARCO. Qual vai ser a dinâmica?

ANDRÉ RESENDE. O mediador abre a sessão do grupo com um texto introdutório ao tema, previamente enviado às pessoas por e-mail. Em seguida, cada um do grupo se coloca por dois minutos, sem ser interrompido, seguindo o princípio de gentileza gera gentileza. Depois, o mediador faz uma aproximação que invoque um aprendizado, quando for possível, e abre espaço para mais intervenções. Como todo trabalho tem propósitos e utopias, espera-se que o diálogo tenha o movimento de seis axiomas, uma vez que generalizações da observação empírica estarão presentes:  a. todos somos feitos de todos, b. todos podemos rever nossos modelos existenciais e psíquicos de agir, viver, pensar, julgar e interagir, c. cada um de nós pode ser ajudado a rever nossos modelos existenciais e psíquicos, d. o mediador pode se modificar no percurso do diálogo com o grupo, e. a sociedade e a opinião pública podem ser modificadas por qualquer pessoa, pois a mudança começa em cada um. Durante o encontro, estarão em atenção: a. a transcendência do tema, b. o significado, c. o sentimento de apropriação psíquica e existencial, d. o autoconhecimento emocional, e. controle emocional, f. automotivação, g. o reconhecimento das emoções em outras pessoas, h. relacionamentos interpessoais, i. pensar em conjunto ações de alcance de objetivos comuns j. adaptação a situações novas e complexas, com desafios, k. a formação de sentimentos construtivos de pertencimento e envolvimento em atos de transformação, l. a autogestão psíquica e existencial. Claro, tudo isso na medida do possível, sem nenhuma citação ou sei lá o quê que pareça um código de conduta e de expressão todo encontro anunciado, Deus me livre dessas coisas.

 

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