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Na próxima semana, Ingrid Fagundez irá ministrar o curso “As Narrativas da Memória na Literatura” que irá abordar os modos de usar e pensar a memória na produção literária. O blog do b_arco traz cinco indicações de obras que a professora recomenda para os interessados nas tramas que tratam de memórias.

As aulas irão tratar das possibilidades e limitações que a memória oferece ao autor, com ênfase nos gêneros não-ficcionais, como memoirs, diários, autobiografias, biografias e obras híbridas. Das recordações pessoais às coletivas, o curso pensa o papel da memória em vários tipos de manifestação literária, como ordenação da experiência ou testemunho político, de Drummond a Primo Levi, de Natalia Ginzburg a Maya Angelou.

Para preparar os interessados, Ingrid indicou ao blog do b_arco esta lista que aborda a memória como lacuna, identidade e história em cinco obras que se organizam em torno das recordações.

1º) A noite da arma – livro de David Carr

A noite da arma | Amazon.com.br

O jornalista e escritor americano David Carr, morto em 2015, tinha uma lembrança vaga. Em uma de suas noites de bebedeira e drogas, nos anos tomados pelo vício, um amigo lhe apontou uma arma. Décadas depois, ao conversar sobre o incidente com o mesmo amigo, Carr ouviu que, na verdade, a arma era sua. A partir das muitas falhas de sua memória, corroída não apenas pelo tempo, mas pelas substâncias que apagaram partes importantes de seus dias, Carr decide investigar seu passado como se trabalhasse em uma das reportagens que escrevia para o The New York Times. 

Durante três anos, fez mais de sessenta entrevistas com pessoas próximas, cruzou dados e ouviu versões sobre o período em que abusou da cocaína, do crack e da bebida, fracassou em empregos, bateu em mulheres, foi preso várias vezes e teve filhas gêmeas com uma namorada que também era viciada. O que aconteceu em noites que se tornaram um borrão, como a da arma? Onde esteve? Com quem falou? O que fez? Quem era, afinal? Depois de alcançar a sobriedade, tornar-se pai solteiro das duas meninas, casar de novo e construir uma carreira sólida no jornalismo, Carr dedicou seus esforços de repórter à própria história, numa tentativa de atar as pontas soltas. “A noite da arma” é um livro que, ao se esforçar para recuperar narrativas pessoais, mostra a falta de confiabilidade da memória e a maneira como transformamos nossas experiências em versões mais palatáveis do que vivemos, para que se acomodem à imagem que temos de nós. 

 

 

2º) A memória de Shakespeare – conto de Jorge Luis Borges 

NOVE ENSAIOS DANTESCOS & A MEMÓRIA DE SHAKESPEARE - - Grupo Companhia das Letras

Um dos últimos contos de Borges, “A memória de Shakespeare” nasceu de um sonho do escritor argentino. A partir dele, Borges constrói a história de Hermann Soergel, um estudioso de Shakespeare que encontra um homem que afirma ter a memória do dramaturgo elisabetano e o dom de passá-la a quem quiser. Soergel a aceita, sem saber o que ela trará consigo. Deve-se esclarecer de que não se trata do talento literário, mas das lembranças pessoais de Shakespeare, que vão se misturando às de Soergel e progressivamente confundem-no.

No conto, Soergel explica que, com as recordações do dramaturgo ocupando os cômodos de sua mente, sobra pouco espaço para as próprias:

“Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase inundou, meu modesto caudal. Temeroso, percebi que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão.” 

Além da relação entre recordações e identidade estabelecida por Borges no conto, Ricardo Piglia faz outra leitura da história. Ele coloca a metáfora borgiana da memória alheia no centro das obras de autores como Philip Dick e Gibson, narrativas que representariam o fim da memória própria e sua substituição pelas lembranças alheias na literatura contemporânea. Isso, claro, num mundo dominado pela cultura de massa, entrevisto por Borges em seus últimos anos. Segundo Piglia, a cultura de massa, ou a política de massa, foi encarada pelo escritor como uma “máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais”: “todos sentem a mesma coisa e recordam a mesma coisa, e o que sentem e recordam não é o que viveram”, ele escreve num ensaio.  

 

3º) Para sempre Alice – filme de Richard Glatzer e Wash Westmoreland 

Para Sempre Alice - Filme 2014 - AdoroCinema

Deixo este filme na sequência de Borges porque ele também trabalha a ligação entre memória e identidade, desta vez pela história da personagem Alice Howland, uma professora e pesquisadora bem-sucedida, interpretada por Julianne Moore, que é diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos. Em inglês, o filme chama-se “Still Alice” ou, numa tradução livre, “Ainda Alice”, como numa afirmação de que, mesmo sem as recordações que compõem sua visão de si, sua autoconsciência, Alice ainda é Alice. É curiosa a substituição do “ainda” pelo “sempre” em português, talvez uma tentativa de dar mais ênfase à mesma ideia. 

Assim como o pesquisador de Borges teme esquecer a língua dos pais, Alice perde primeiro as palavras, uma dor imensa para uma professora de linguística. Quando percebe, ela perde também suas geografias externa, confundindo-se pelas ruas da cidade, e interna, à medida que os rostos familiares apagam-se, levando junto Alice, que deixa de ser Alice, apesar de ainda ser, e sempre, Alice. 

 

4º) A Trégua – memoir de Primo Levi 

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Da Trégua, me lembro sempre da cena final. O livro, publicado em 1963, quase vinte anos depois do primeiro relato de Levi sobre Auschwitz (É Isto Um Homem?), narra sua longa viagem de volta para a casa depois da libertação do campo de concentração. Levi e seus companheiros cruzam uma Europa em ruínas a caminho da Itália. É uma viagem pelos escombros e pela burocracia de uma realidade que parece absurda logo depois do Holocausto, recém-descoberto pelo resto do mundo. Os livros de Levi têm grande responsabilidade na exposição das atrocidades cometidas na Segunda Guerra, sendo uma voz sobrevivente entre tantas que pereceram. Sua memória é, portanto, pessoal e histórica, própria e coletiva, porque ao recontar seus dias como prisioneiro não trata apenas de suas angústias particulares (elas quase não aparecem em É Isto Um Homem?), mas de uma desumanidade compartilhada. São as memórias de um homem e de um tempo. 

A cena final de A Trégua, a que nunca esqueço, traz a dura realidade do retorno por meio de um sonho. Nele, Levi está à mesa com parentes e amigos – “ou no trabalho, ou no campo verdejante” – quando, de repente, o cenário começa a se desfazer e pessoas e paredes desmoronam até que tudo torna-se caos, um “nada turvo e cinzento”. E então Levi percebe que está de novo no campo, que todo o resto fora um sonho, férias breves, um “engano dos sentidos”. Mas o sonho finda, a realidade começa a se impor, e ele então escuta a palavra que tão bem conhece, a palavra temida e esperada, “o comando do amanhecer em Auschwitz: levantem, ‘Wstavach’”. 

Revivendo a guerra pela memória, Levi não consegue deixá-la.  

 

 

5º) O Fio da Memória – documentário de Eduardo Coutinho  

O Fio da Memória (1991) - IMDb

Este longa de Eduardo Coutinho foi feito sob encomenda, por ocasião do centário da abolição da escravidão, em 1988. 

Para expor a experiência negra no Brasil ao longo dos séculos, Coutinho usou como personagem central Gabriel Joaquim dos Santos, nascido em 1892 e morador de São Pedro da Aldeia, no Estado do Rio de Janeiro. Gabriel era filho de ex-escravos e construiu sua própria casa (a Casa da Flor) a partir de material reciclado, num grande mosaico de cores e formas. Morreu em 1985, anos antes da filmagem do documentário, que recuperou sua voz a partir de relatos gravados e anotações de seus diários. 

Gabriel é uma voz contra o esquecimento, o testumunho, dado também por outro velho ex-escravo entrevistado por Coutinho, de um Brasil escravocrata que não está tão distante no tempo e no nosso ímpeto ainda segregador. “O Fio da Memória” nos lembra da violência racista e classicista que nos gerou e que hoje pulsa debaixo de nós de maneira menos dissumulada. Nos lembra também dos presentes que a cultura africana nos deu e de como ela nos habita, pelas crenças, música e política. Como Darcy Ribeiro diz tão bem em “O Povo Brasileiro”, em frases que me vêm quase todos os dias neste último ano: “Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos”. 

Coexiste em nós o que morre e o que mata e Coutinho não nos deixa esquecê-lo. Porque a memória, ele sublinha, seguindo a mesma linha de Levi, nos torna conscientes da história e dos ciclos que a envolvem, para que possamos transformá-los.