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Marta Nehring, professora no b_arco, indica a “A Infância de Ivan”, de Andrei Tarkovski, como um ótimo filme para se aprender análise cinematográfica

Um bom começo para realizar  produções audiovisuais é apurar o olhar, desenvolver a habilidade de interpretar e entender tecnicamente os conteúdos. Mas, como ler as imagens? Qual é o método para interpretar as imagens do cinema?

Marta Nehring, que é mestre em Teoria Literária e doutora em Cinema pela USP, e ministra o curso de Narrativa Audiovisual no b_arco em março – que trata justamente da arte de contar histórias para as telas, da natureza do drama aos conhecimentos de gênero e conflito – selecionou o filme “A Infância de Ivan” como exemplo para compreender as potências:  

“O filme “A Infância de Ivan” é especialmente interessante por que ele tem uma elaboração poética muito forte nos seus planos, isso faz parte da pegada do diretor Tarkovski. Ao mesmo tempo também tem uma trama envolvente, trabalha com materiais de arquivo, traz  questões de sonhos e de memórias de infância do diretor que são incorporadas na adaptação de um conto”, comentou Marta. O conto a que se refere é a obra de 1957, do escritor soviético Vladimir Bogomolov, chamada Ivan, obra que propõe um estilo narrativo similar a um relatório de campanha militar. 

Esta referência ao conto, segundo Marta “nos permite também pensar a fronteira entre adaptação e criação, no que diz respeito a trabalhar uma obra literária. Tem planos do filme que ficaram muito conhecidos e são comentados na história do cinema, como por exemplo o uso de movimentos de câmera ou a do ponto de vista, que ajudam a contar uma história literária, visualmente”

No filme russo de 1962, Ivan, um menino de 12 anos órfão de guerra, trabalha como espião para o exército soviético, se infiltrando nas linhas nazistas. Ao mesmo tempo em que luta como um adulto, ele tem contínuas e frequentes lembranças de sua mãe, seus amigos e suas irmãs. 

Para a professora, a escolha do filme para análise cinematográfica se dá por conta de sua matriz poética: “a ideia de trabalhar com filmes que tenham esta matriz poética é exatamente porque eles deixam mais claro técnicas de como mostrar algo sem colocar o personagem para falar; como um cineasta trabalha o ponto de vista, o plano, a cena, sem fazer uso das palavras, apenas pela forma que foi concebido, inserindo-o dentro de um pensamento de criação poética, a fim de contar uma narrativa com começo meio e fim”. 

A análise ou leitura cinematográfica é extremamente importante, mesmo para quem não tenha interesse em trabalhar no mercado audiovisual mas queria se aprofundar nas estratégias de contar histórias por meio de imagens e sons. Segundo Marta, “hoje estamos muito mergulhados em uma cultura extremamente audiovisual e passamos a não enxergar, a não distinguir os elementos que estão em ação.” Em seu curso “Narrativa Audiovisual”, que se inicia ainda em março no b_arco, a professora e pesquisadora pretende justamente quebrar com esta passividade.

“Uma das coisas interessantes deste curso é possibilitar aos participantes sair do entendimento do texto do roteiro como apenas diálogos, cenas, ações, plot, e entrar na questão da poesia. Pois todos os filmes trabalham com o universo do signo, explorando figuras de linguagem, metáfora e metonímias. São questões muito relevantes para que a criação aconteça”, conclui Marta.

Confira abaixo o trailer do filme de Tarkovski e saiba mais informações do curso em: https://barco.art.br/eventos/narrativa-audiovisual/