O curso “Poesia na Idade Mídia”, ministrado pelo jornalista e escritor Ademir Assunção, busca trazer à tona quais são os novos parâmetros sob quais a poesia deve ser amparada para que se desenvolva uma reflexão atualizada de sua importância. Nos dias de hoje, marcados pelo esvaziamento das linguagens, pelo excesso de informação sem essência e pela manipulação incessante da realidade, a posição que a poesia toma deve ser rearticulada para que ela se atualize dentro deste novo contexto.

Ademir Assunção é formado em jornalismo e possui 14 obras de poesia e prosa publicadas. Dentre seus livros, “A Voz do Ventríloquo” foi o vencedor do Prêmio Jabuti 2013 e “Pig Brother” foi finalista no Prêmio Jabuti 2016, ambos de poesia. Também publicou “Zona Branca” (2001), “Faróis no Caos” (2012), “Ninguém na Praia Brava” (2016), “Parapsicologia da Decomposição” (2017), entre outros. Seus poemas e contos já foram traduzidos para o inglês, espanhol e alemão, e publicados em livros e revistas na Argentina, México, Peru e EUA.

Selecionamos algumas poesias de Ademir para os interessados em conhecer um pouco mais sobre sua produção poética que também será abordada durante o curso “Poesia na Idade Mídia”:

5 DIAS PARA MORRER

para Hector Babenco

morreremos loucos, Ana
os sapatos
novos
em cima da mala
— mala notte
o dia, a pior
foto: olhos úmidos
no vídeo
flashbacks:
a virilha imunda
do marinheiro
os eletrodos frios
nas têmporas
as pílulas coloridas
peixes
num aquário
cujo vidro
quase se quebra
toda vez
que o tocamos

sim, Ana
morreremos loucos
mas
esta noite
dormiremos
juntos

GIRASSÓIS EM CHAMAS

dorso de touro, tigre
listas camufladas:

um salto súbito e o sangue jorra
vinho na relva, patas em convulsão

carcaça, deserto
chifres contra o fundo

de uma moldura árida

mas a brisa, mesmo seca,
sibila algo, escute:

ali se travou uma batalha.

pior a serpente
com seu veneno diário

gota a gota, amortecendo

a fúria, a força
o roçar de pétalas

até que reste só
o girassol em chamas

no fundo do quintal

OLHOS ELETR1COS

ponta de pedra aguda
faces rasgadas, bétulas amargas

você me diz psiu, violência
no jeito de piscar as pálpebras

pássaros tristes entre cães aprisionados
enfim vivemos num cenário

onde crianças com olhos elétricos
vasculham os bolsos de lady solidão

musas sádicas me acariciam
com unhas de gilete

lábios em came-viva, mil beijos
de medusa — strippers que após a roupa
arrancam a própria pele

e você vira as costas, arrasta-se
como um mamute pelo corredor

arremessando um “boa noite”
que me acerta em cheio na testa

A LÁGRIMA DE VAN GOGH

o ar da tarde reflete
as flores do arco-íris

mudas, as cores giram
lisérgica dança de Shiva
sobre o campo de girassóis

centeio embolorado
: auto-retrato da Loucura
nas pupilas em chamas

& uma única lágrima
guardada
na caixinha de jóias

Poemas extraídos da NA VIRADA DO SÉCULO: poesia de invenção no Brasil, organização de Claudio Daniel e Frederico Barbosa. São Paulo: Landy, 2002.

Para mais informações sobre o curso e realizar sua inscrição, clique aqui.

Poesia na Idade Mídia
De 13 a 15 de janeiro de 2020
Segunda a quarta, das 19h30 às 22h30

b_arco
Rua Dr Virgilio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros, São Paulo
Próximo da estação Fradique Coutinho do Metrô
Estacionamento ao lado

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