\blog

Jotagá Crema, um dos criadores da série 3%, que irá ministrar o curso “Projetos de Séries para TV – da Ideia ao Pitching” deu uma entrevista ao blog do b_arco com dicas fundamentais para iniciantes.

Em setembro, começará mais uma turma do curso regular Projetos de Séries para TV – da Ideia ao Pitchingcom Jotagá Crema, na modalidade online. Os cursos regulares do b_arco tem como proposta o desenvolvimento de seu projeto, com atenção dedicada do professor a uma turma reduzida e encontros semanais em videoconferência.

No curso, Jotagá pretende formar uma grande sala de roteiro com alunos e seus projetos de séries (cada aluno desenvolverá um projeto). Durante dois meses, os encontros serão baseados em projetos de cada aluno, discutidos coletivamente em sala, para aprofundá-los tanto dramaticamente quanto comercialmente. As inscrições ainda estão abertas!

Em entrevista ao blog do b_arco, o professor, que tem experiência justamente em viabilizar projetos de séries de TV, dá algumas dicas para iniciantes e comenta os primeiros passos de um projeto – da ideia à telas. Confira abaixo:

Quais os primeiros passos para quem tem uma ideia que pretende transformar em uma série para TV?

J: O primeiro passo depende da formação de quem tem uma ideia para transformar em uma série de TV. Se a pessoa já conhece o mercado audiovisual, já tem experiência em escrever roteiros e já estudou sobre roteiros de séries de TV, o primeiro passo seria formatar uma bíblia de vendas e levar a festivais que possibilitam contato com players ou produtores. Eu recomendo sempre começar a relação com produtores e depois levar a canais.
Para quem não tem formação sobre séries de TV, a minha recomendação é estudar. Fazendo cursos, ou formação em audiovisual. Quem é jovem ainda pode fazer uma faculdade de cinema, audiovisual ou Rádio e TV. Quem já é formado em outras áreas, pode fazer uma pós-graduação, por exemplo. De forma geral, estudar. Além de um estudo formal, praticar muito e entender quais são as especificidades de escrever roteiro de dramaturgia e, principalmente, roteiros de dramaturgia de séries.

 

Pensando que nem todas as ideias vingam, quais seriam os pontos a que temos que colocar a prova uma ideia para saber se ela é boa para ser desenvolvida como roteiros audiovisuais?

J: O primeiro entendimento que você tem que ter sobre uma idéia é o tamanho dela. Se essa ideia pode ser um curta metragem, um longa metragem, uma mini-série, uma série ou uma novela. Existem diferentes tamanhos de dramaturgia, tipos de história que se fecham muito rapidamente ou são muito sutis (o que seria um curta), ou histórias que são maiores, mas com começo, meio e fim (um longa metragem) e as séries, que são dramaturgias abertas, assim como as novelas. Tudo depende de quantos personagens e plots você vai ter. Então, existem tamanhos de ideias diferentes. Nos projetos que eu desenvolvo, eu foco muito em entender tematicamente a série e no desenvolvimento dos personagens – se eles podem render muitas histórias. O conflito precisa se sustentar ao longo de uma temporada, de 7 a 13 episódios, aproximadamente, ou mais.

 

Qual a importância de definir um público alvo para uma produção audiovisual? Como um iniciante pode ter certeza que sua ideia dialoga com seu público?

J: Eu acredito que defender um público é fundamental, mas não necessariamente você precisa criar para um público. Tudo depende de como o autor ou autora se inspira para criar ideias. Existem pessoas que se dão muito bem em pegar uma tendência do mercado ou um gênero que está em nascimento e criar uma ideia a partir daí, atendendo a um briefing. Notando, por exemplo, que faltam séries para um determinado público e a pessoa gosta de escrever para este público ou ainda, recebe a encomenda de um produtor que quer explorar um determinado universo para um público específico.

Mas também existem pessoas que não se motivam com isso. Para estas pessoas, acho que devem criar seus universos e projetos próprios, depois entender para qual público é e como adaptar o projeto para dialogar melhor com este público. De qualquer forma, o principal é que o autor ou autora se inspirem pela sua ideia, sentindo que esta ideia expressa algo para ele(a). Comento sempre com meus alunos que a criação de séries é algo profundamente autoral. Lógico que no desenvolvimento da série, quando ela está no canal, o projeto passa a ser mais “industrial”. Mas a semente deste projeto tem de ser autoral e significar muito para o autor(a) – que provavelmente vai estar liderando a sala de roteiro ou fazendo uma direção criativa, de alguma forma. A questão do público alvo é muito importante, mas não necessariamente ela é definidora de um projeto. Mesmo que ela não tenha sido a inspiração para um projeto, vai ser sempre importante para determinar o canal e que tipo de série irá se desenvolver; mas existem estas duas maneiras diferentes de criar.

 

Após os primeiros passos, o que um iniciante no mercado audiovisual pode esperar do desenvolvimento de seu projeto? Como se preparar para o longo caminho até as telas?

J: Aquele que desenvolver o seu projeto, eu acredito, também deve praticar a escrita de roteiro e se envolver com outros projetos, criando novos contatos. Falar com produtores, players, ir a encontros e rodadas de negócios que existem em festivais é muito importante; circulando e mostrando seu trabalho. Isso porque quando você apresenta um projeto de série, não se está apenas apresentando o projeto, mas também se apresentando. Mostrando seu trabalho e seu portfólio para possíveis parceiros de trabalho. O projeto da série  “3%” demorou mais de cinco anos para ser fechado, entre filmar o piloto e vender para a Netflix, considerando que entre o piloto e a estréia no streaming foram 7 anos. 7 anos de “não”. Receber “não” faz parte, são muito mais “não” que “sim” que temos na nossa carreira, faz parte! Por isso a resiliência também é muito importante, pois enquanto não temos nosso projeto rolando, é preciso criar relacionamentos no mercado, apresentar o trabalho, praticar, trabalhar na sala de roteiro de outros projetos e com outros roteiristas. Se você não tem experiência em uma sala de roteiro, eu sempre recomendo aos meus alunos: montem uma sala de roteiro com seus amigos! Porque o mercado vai muito além do seu projeto fechar ou não fechar, este projeto serve para ter uma oportunidade de criar a sua série, mas também para mostrar o seu trabalho e poder participar de outros projetos como roteirista.

 

Depois de ter desenvolvido muitos projetos e acompanhado produções de sucesso, quais seriam suas principais dicas para uma pessoa que pretende começar no universo das séries?

J: Minhas principais dicas são: fazer seu projeto, desenvolvê-lo, apresentar este projeto, fazer mais de um projeto e se relacionar com outros roteiristas e produtores do mercado. É importante criar parcerias e mostrar o seu trabalho, para você poder ser conhecido e começar a ser chamado para desenvolver seus projetos. Mesmo que uma ideia sua não aconteça, às vezes você pode ser chamado para participar de um projeto que seja ainda mais importante. Não se mantenha isolado, tenha um grupo de roteiristas que você confia e com quem pode trocar, montando grupos de apoio aos projetos. Faça cursos e treine sempre. Não ache que vai ser do dia para a noite que seu projeto vai rolar, porque isso não é o normal, o normal é demorar anos para acontecer. É preciso entender que a carreira vai muito além dos seus próprios projetos autorais, é preciso usá-los como forma de desenvolvimento pessoal e de relacionamento com outros colegas e players.