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Jotagá Crema, um dos criadores e roteiristas de “3%” conta o processo de sucesso da primeira série original Netflix no Brasil e comenta o universo do streaming no país

Em 25 de novembro de 2016 estreou na plataforma de streaming Netflix a série brasileira “3%”, primeira produção original do serviço no país e a segunda na América Latina. No mesmo ano, a narrativa pós-apocalíptica inspirada em clássicos distópicos como 1984 e Admirável Mundo Novo, foi a série de TV em língua estrangeira mais assistida nos EUA.

Um dos criadores da série, diretor e roteirista especializado em desenvolvimento de projetos de Série, Jotagá Crema, comenta esta trajetória de sucesso e as novas oportunidades no mercado audiovisual brasileiro a partir da chegada do streaming no país. Em entrevista ao b_arco, onde vai ministrar o curso Projetos de Série de TV – da Ideia ao Pitching, Jotagá destaca a oportunidade de aprofundamento e trocas que os encontros vão oferecer:

Quais foram seus primeiros projetos de série?

Desde 2007, eu desenvolvo projetos de Séries em coletivos, como o Cromossomos, que existiu na antiga produtora Maria Bonita Filmes, e outros parceiros. Meu primeiro projeto de Série foi um piloto para o Multishow chamado “Programa dos Sonhos”, mas o primeiro projeto de Série que se tornou realidade foi o de “3%”.

Como foi o processo de “3%”, do projeto à realização?

O projeto se iniciou com um edital chamado FicTV, do Ministério da Cultura. O Pedro Aguilera teve a idéia da Série e desenvolvemos juntos o projeto – com Dani Libardi e Daina Giannecchini – que inscrevemos no edital, o qual fomos contemplados para filmar o piloto e fazer a bíblia da Série. Dani, Daina e eu dirigimos o piloto e o Aguilera fez a chefia de roteiro e assim finalizamos o piloto em 2010. Mas não fomos contemplados para fazer a série, na segunda etapa do edital. Em 2011, tivemos a ideia de colocar o piloto no Youtube – no formato de websérie – para fazer uma campanha online, que teve muito sucesso nas redes sociais da época. Por fim, colocamos  legendas em inglês no episódio piloto e a série começou a ser divulgada fora do Brasil. 

Por que escolheram esta estratégia online?

Era muito difícil de chegar até os canais de televisão e o orçamento da Série era muito alto para os padrões da TV a cabo na época. A Netflix nos encontrou assim, com o vídeo do piloto – que nesta altura já tinha sido trabalhado também pelo Tiago Mello, da Boutique Filmes. O vice-presidente de produções originais da Netflix na época entrou em contato com o Tiago, que conduziu a negociação que resultou na primeira temporada. Começamos a produção no final de 2015, filmamos em 2016 e estreiamos no mesmo ano.  

Havia alguma diferença da bíblia inicial para a que foi vendida à Netflix?

Sim, como a primeira bíblia era de 2010, tivemos várias mudanças e ela foi evoluindo com o tempo. Os personagens evoluíram bastante, encontramos o tema da série com mais clareza, o universo da ficção científica distópica também ficou mais complexo mais rico. Também evoluímos muito a curva da temporada, o que era “O processo” na primeira temporada. Nós tínhamos um bíblia e um piloto muito fortes, mas depois que entrou na Netflix o universo da Série evoluiu de forma geral:  inicialmente era menos futurista, ele ficou mais tecnológico, principalmente com a entrada do César Charlone na Direção. A Série também ganhou mais brasilidade, pois ele trouxe muitos elementos de sua fotografia para a Série, como a câmera documental solta, foi uma colaboração muito importante.

Uma personagem muito importante na Série, a Joana, foi criada apenas no projeto para a Netflix. Foi concebida na Boutique filmes com supervisão do produtor executivo Tiago Melo, para trazer uma indiferença em relação ao “Processo” que faltava em outras personagens.

Como foi o trabalho com uma plataforma de streaming?

A Netflix foi muito atenciosa e preocupada em fortalecer a Série para que ela cativasse o público mais jovem, que era nossa ideia original e também atingir os espectadores internacionais. Ao fim, 50% da audiência de “3%” é de fora do Brasil, a Série foi muito vista e muito comentada e tem muitos fãs de vários países. Mas acredito que haja uma mudança de paradigma no trabalho com uma plataforma de streaming: quando desenvolvemos o projeto de Série de “3%” a Netflix já existia, mas não no Brasil, desta forma, a Série passou pela TV Brasil, TV Cultura, Youtube e depois encontrou a Netflix. Muito mudou: os episódios ficaram mais longos, mas a quantidade de episódios diminuiu. Inicialmente, pensávamos em blocos para os intervalos comerciais, no streaming já não tinha mais isso. Também nessa plataforma já não precisa ter tanta redundância nos episódios, pode-se avançar mais rápido e ter muitos pontos de virada e mudanças de rumo na história e personagens. Elaboramos diversos recursos dramáticos que prendessem a atenção das pessoas, resultando em uma Série “maratonável”.

Como você encara essa mudança para o streaming no que diz respeito ao mercado brasileiro?

Acredito que é uma oportunidade muito legal para fazermos Séries com conceitos mais experimentais no audiovisual brasileiro. Projetos que sejam mais profundos e com os quais consigamos ir mais fundo nos personagens e também prender a atenção do espectador com bastante emoção. As plataformas de streaming estão procurando projetos que sejam fortes, já existe um grande mercado para isso e acho que é uma oportunidade para a produção brasileira.

Você pretende trabalhar estas especificidades do streaming no curso Projetos de Série de TV – da Ideia ao Pitching no b_arco?

No curso pretendo guiar todos os participantes para chegarem a um tema forte e à uma premissa que sustenta a Série, que é a única forma de, caso a série for vendida, ela se mantenha no futuro. O curso pretende a fortalecer o projeto tanto no sentido comercial quanto de sustentação da narrativa. Eu tenho muita experiência em formatar projetos de Série, na Boutique Filmes por exemplo, vários projetos que criei ou ajudei a formatar foram vendidos como o SOS Fada Manu, Papaya Bull, Experimentos Extraordinários ou Cinelab. Nestes projetos, colaborei, fiz o desenvolvimento, formatei as bíblias e aprendi por experiência que o principal é entender o tema da sua Série e criar personagens que sejam fortes para sustentar conflitos que duram várias temporadas.

Como estas questões vão ser apresentadas aos participantes?

O grande diferencial do curso é que ele é focado nos projetos das pessoas. Cada participante vai ter um feedback de seu projeto, assim como vai poder comentar os projetos dos outros, tendo uma exposição a diferentes ideias ao mesmo tempo em que desenvolve a sua própria. Pretendo relacionar a minha experiência ao desenvolver a bíblia do “3%” e de outros projetos que foram realizados, dando exemplos práticos do mercado e mostrando como se desenvolveu cada um destes projetos.